Amigos, colegas, nos últimos
tempos, perguntam-me com um sorriso sincero, se eu ando bem! Obviamente -
responde-lhes que não. Não! Não ando bem…
Contudo, a vida não gira só à
minha volta e sou demasiado insignificante para dar-me ao valor de olhar para
mim. Assim, hoje, sinto que devo partilhar convosco uma história vivenciada por
mim, sobre a vida militar e a irresponsabilidade que sempre lá existiu com a conivência
de superiores hierárquicos que não dão Valor à Humanidade, à pessoa. É o que é.
A história parte por causa do que
rodeia a morte dos dois comandos.
Quem me conhece desde puto, ser
militar sempre foi um sonho. Brincava aos cowboys, aos tiros e esconde aqui e
ali, cultivava a defesa pessoal, montei um saco de boxe no palhal e fazia
aquilo que via fazer nos filmes… e sempre desenhei armas, aviões. A guerra
seduzia-me. Contudo, em Coimbra quando fui à inspeção militar perdi a ideia da
guerra...
Pedi para cumprir e nem entreguei
as minhas habilitações literárias, frequentava o 12 ano.
Passando à frente, a recruta teve
muitas peripécias, mas a história de hoje, remete-se ao meu primeiro dia em
Faro, após juramento de bandeira em Elvas, como condutor CAR.
Todos os soldados, cabos e
sargentos fizeram questão de nos dizer, a nós maçaricos, que só podíamos entrar
no bar de praças, acompanhado de um “pronto” não maçarico. Aqui este artista,
avesso a regras e a injustiças, à noite, entrou sozinho, ninguém quis
acompanhar-me, pediu uma bebida, que foi recusada e, ou mas, apesar dos olhares
de parvos daqueles “feijões-verdes” que por lá estavam, agarrados a garrafas de
cerveja e a meter fumo para os pulmões. Sentei-me no sofá, onde
descontraidamente, comecei a assistir à telenovela. Quando me sentei,
verifiquei que todos os demais “prontos” que estavam no sofá, tipo mola,
olharam para mim e para trás, e levantaram-se…
Assim, sentado, passado uns
minutos, o meu pensamento perdeu-se a imaginar coisas pessoais que vocês não
precisam de saber… distraído, desperto com um calor ligeiro, depois intenso e sinto
uma dor aguda nas costas. Instantemente, salto do sofá e começo com as mãos a
apagar o fogo que trazia preso entre as calças e pele e pelos das costas…
resumindo, um esperto colocou um guardanapo, sem eu dar conta, entre as calças,
junto ao cinto e camisa e pegou-lhe fogo.
Depois de apagado o “incendio”, sentir
dor forte e cheirar a pele de “porco” queimada, perguntei a todos eles, os chamados
“prontos”, que se mantinham a rir que nem uns tristes, indiferentes à minha
situação. Eu queimado, eles riam-se!
Perguntei alto, sobre quem tinha
sido o autor da proeza. Ninguém respondeu, mas todos continuaram a rir… no bar,
estava sentado, 1 primeiro-cabo. Como era o mais graduado, dirigi-me a ele, mostrei-lhe
as costas, camisa e calças queimadas e perguntei quem tinha feito aquela merda.
Não respondeu e riu-se. Insisti. Levantou-se e riu-se. Em menos de um segundo,
voava por cima da mesa por causa de um pontapé rotativo que o apanhou no peito e
foi cair desamparado por em cima de outros jogadores de cartas que estavam
noutra mesa… houve logo um outro cabo que teve o azar de me colocar a mão do
ombro… e foi a voar até ao balcão… bem… ao fim de uns poucos minutos, silêncio
no bar… entrava um sargento e um alferes, ali da zona da Guarda. Era o oficial
dia, sargento dia… proferida a ordem acompanhei-os até ao gabinete, onde cá
fora, sentado, via movimentos dentro do gabinete do oficial… Ordenaram-me que
entrasse disseram-me que iria ser transportado para Elvas, para o presidio,
porque tinha agredido um superior hierárquico! Se me assustei? Não.
Pedi para falar, o alferes
deixou-me falar… descrevi o sucedido, mostrei os ferimentos e os danos e disse-lhe
a olhar olhos nos olhos, que iria apanhar o “filho da puta” que me havia
queimado e que iria levar tantas, mas tantas que nem a mãe o reconheceria no
hospital, isto, se eu fosse para Elvas, bem como quem o estivesse a encobrir.
Telefonema para aqui, telefonema
para ali…
Sai do gabinete, enquanto o 1º
cabo, que estava sentado se levantou logo que me sentei ao lado dele…
Resumindo, depois da conversa da treta, dos Deveres, do RDM e daquele sermão todo, lá demos um cumprimento ou aperto de mão, uns aos outros… e lá fui para a camarata dos “maçaricos” e “prontos” onde entrei, aplaudido pelos “maçaricos” como o Herói a noite.
Resumindo, depois da conversa da treta, dos Deveres, do RDM e daquele sermão todo, lá demos um cumprimento ou aperto de mão, uns aos outros… e lá fui para a camarata dos “maçaricos” e “prontos” onde entrei, aplaudido pelos “maçaricos” como o Herói a noite.
Conclusão, no dia seguinte fui
destacado para o serviço de condutor da manutenção e e acabaram em Faro, isto
durante o tempo que lá estive, as praxes aos “maçaricos” e as restrições de
acesso ao bar e a fome que por lá se passava, entre os soldados...
Para finalizar, não tomem esta
história como invenção, nem me julguem uma espécie de Rambo. Não. Sou apenas um
ser humano frágil, temeroso mas que gosta de se dar ao respeitado e exige o
mesmo de todos. Todos! Sem excepção.
Bom dia.

Sem comentários:
Enviar um comentário