«António» (nome fictício) tinha 37 anos e era polícia em Lisboa. A pressão do trabalho há muito que o deixara deprimido. Pediu ajuda. Ninguém ouviu. Um dia não aguentou e pôs fim à vida, com um tiro na cabeça. Nos últimos dez anos, 35 agentes da PSP cometeram suicídio. Dados oficiais que, para a psicóloga Sandra Coelho, do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP), «ocultam a realidade» de um fenómeno «subavaliado» no País. Uma visão confirmada por duas das estruturas sindicais, mas refutada por outra. O director do Gabinete de Psicologia da PSP diz que «o suicídio nunca se esconde».De acordo com a responsável do Gabinete de Psicologia do SPP, há cada vez mais profissionais em risco e a realidade é «escondida», porque os agentes não podem «falhar», e essa «é a maior das falhas». Segundo explicou ao DN Sandra Coelho, as estatísticas oficiais apenas dizem respeito aos suicídios com recurso a arma de fogo ou, em raras excepções, por enforcamento. «São as mortes visíveis, citadas nos media como casos pontuais», mas, acrescenta, existirão casos de agentes que recorrem, por exemplo, à ingestão de comprimidos, «que nunca vêm a lume. Aqui, a causa de morte pode ser apresentada como uma simples paragem cardíaca». Também para Ernesto Peixoto, secretário-geral da Associação Sindical Independente de Agentes da PSP, o suicídio está subavaliado. «Sei de vários casos de colegas que atiram o carro de uma ribanceira abaixo e esses não são contabilizados», contou, defendendo que factores como «trabalhar oito dias seguidos sem folgar» agravam a situação. Daí que sejam cada vez mais comuns situações de «baixas por doenças psicológicas» e reformas antecipadas.Já para Fernando Passos, «a contabilização do número de suicídios é rigorosa e não há hipótese de existirem confusões». E mostra-se optimista: «Desde 2001, quando o nosso serviço abriu, que o número tem vindo a diminuir.» Uma leitura partilhada por um dos maiores sindicatos, a Associação Sindical de Profissionais da Polícia, que diz não haver subavaliação: «Os agentes são pessoas como as outras, com problemas comuns», disse o presidente Alberto Torres, para quem os suicídios não estão necessariamente ligados à profissão.Com uma visão contrária, Sandra Coelho alerta para a necessidade de prevenção. «O grau de desespero e descontentamento é cada vez maior e existem muitos profissionais que se encontram próximos de atingir o limite», afirmou.Alcoolismo. Há quatro anos, «Fernando» (nome fictício) pediu para que lhe prolongassem o tempo de serviço nos Açores, para dar apoioà filha que lá morava, na altura menor de idade. O pedido foi negado e o agente da PSP voltou para o Porto, «deixando a miúda perdida por lá» com a mãe. Daí ao alcoolismo foi um passo. Casou-se, divorciou--se e viu na bebida um «escape» à «enorme pressão no trabalho», aos «superiores que mandam em vez de comandar». Hoje, com 51 anos, está recuperado, mas não deixa de criticar a falta de apoio na PSP por considerar que resolvem os problemas «com processos disciplinares».Casos de alcoolismo são cada vez mais frequentes nas consultas de Sandra Coelho. «E a desintoxicação é morosa, com taxas de sucesso pequenas», diz. Fernando Passos desvaloriza: «A população policial enferma de alguns males da população portuguesa, mas não se pode dizer que é toxicodependente ou alcoólica.» Para a psicóloga, entre os factores de risco está a falta de apoio familiar, com «muitos agentes, em início de carreira, deslocados das famílias». As estatísticas do Gabinete de Psicologia da PSP mostram o contrário: só cinco por cento dos profissionais que ali acorrem estão longe de casa. Segundo Fernando Passos, o stress profissional e a instabilidade familiar são os principais responsáveis. O DN contactou a Direcção Nacional da PSP, que nos remeteu para o Gabinete de Psicologia. No entanto, o Gabinete de Relações Públicas garante «que é dado todo o apoio aos agentes».
Sitio dos Sócios da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia. Este espaço não é, nem serve para atacar alguém, mas sim um espaço informativo e formativo da ASPP.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
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Arquivo DN-Leonardo Negrão .
«António» (nome fictício) tinha 37 anos e era polícia em Lisboa. A pressão do trabalho há muito que o deixara deprimido. Pediu ajuda. Ninguém ouviu. Um dia não aguentou e pôs fim à vida, com um tiro na cabeça. Nos últimos dez anos, 35 agentes da PSP cometeram suicídio. Dados oficiais que, para a psicóloga Sandra Coelho, do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP), «ocultam a realidade» de um fenómeno «subavaliado» no País. Uma visão confirmada por duas das estruturas sindicais, mas refutada por outra. O director do Gabinete de Psicologia da PSP diz que «o suicídio nunca se esconde».De acordo com a responsável do Gabinete de Psicologia do SPP, há cada vez mais profissionais em risco e a realidade é «escondida», porque os agentes não podem «falhar», e essa «é a maior das falhas». Segundo explicou ao DN Sandra Coelho, as estatísticas oficiais apenas dizem respeito aos suicídios com recurso a arma de fogo ou, em raras excepções, por enforcamento. «São as mortes visíveis, citadas nos media como casos pontuais», mas, acrescenta, existirão casos de agentes que recorrem, por exemplo, à ingestão de comprimidos, «que nunca vêm a lume. Aqui, a causa de morte pode ser apresentada como uma simples paragem cardíaca». Também para Ernesto Peixoto, secretário-geral da Associação Sindical Independente de Agentes da PSP, o suicídio está subavaliado. «Sei de vários casos de colegas que atiram o carro de uma ribanceira abaixo e esses não são contabilizados», contou, defendendo que factores como «trabalhar oito dias seguidos sem folgar» agravam a situação. Daí que sejam cada vez mais comuns situações de «baixas por doenças psicológicas» e reformas antecipadas.Já para Fernando Passos, «a contabilização do número de suicídios é rigorosa e não há hipótese de existirem confusões». E mostra-se optimista: «Desde 2001, quando o nosso serviço abriu, que o número tem vindo a diminuir.» Uma leitura partilhada por um dos maiores sindicatos, a Associação Sindical de Profissionais da Polícia, que diz não haver subavaliação: «Os agentes são pessoas como as outras, com problemas comuns», disse o presidente Alberto Torres, para quem os suicídios não estão necessariamente ligados à profissão.Com uma visão contrária, Sandra Coelho alerta para a necessidade de prevenção. «O grau de desespero e descontentamento é cada vez maior e existem muitos profissionais que se encontram próximos de atingir o limite», afirmou.Alcoolismo. Há quatro anos, «Fernando» (nome fictício) pediu para que lhe prolongassem o tempo de serviço nos Açores, para dar apoioà filha que lá morava, na altura menor de idade. O pedido foi negado e o agente da PSP voltou para o Porto, «deixando a miúda perdida por lá» com a mãe. Daí ao alcoolismo foi um passo. Casou-se, divorciou--se e viu na bebida um «escape» à «enorme pressão no trabalho», aos «superiores que mandam em vez de comandar». Hoje, com 51 anos, está recuperado, mas não deixa de criticar a falta de apoio na PSP por considerar que resolvem os problemas «com processos disciplinares».Casos de alcoolismo são cada vez mais frequentes nas consultas de Sandra Coelho. «E a desintoxicação é morosa, com taxas de sucesso pequenas», diz. Fernando Passos desvaloriza: «A população policial enferma de alguns males da população portuguesa, mas não se pode dizer que é toxicodependente ou alcoólica.» Para a psicóloga, entre os factores de risco está a falta de apoio familiar, com «muitos agentes, em início de carreira, deslocados das famílias». As estatísticas do Gabinete de Psicologia da PSP mostram o contrário: só cinco por cento dos profissionais que ali acorrem estão longe de casa. Segundo Fernando Passos, o stress profissional e a instabilidade familiar são os principais responsáveis. O DN contactou a Direcção Nacional da PSP, que nos remeteu para o Gabinete de Psicologia. No entanto, o Gabinete de Relações Públicas garante «que é dado todo o apoio aos agentes».
«António» (nome fictício) tinha 37 anos e era polícia em Lisboa. A pressão do trabalho há muito que o deixara deprimido. Pediu ajuda. Ninguém ouviu. Um dia não aguentou e pôs fim à vida, com um tiro na cabeça. Nos últimos dez anos, 35 agentes da PSP cometeram suicídio. Dados oficiais que, para a psicóloga Sandra Coelho, do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP), «ocultam a realidade» de um fenómeno «subavaliado» no País. Uma visão confirmada por duas das estruturas sindicais, mas refutada por outra. O director do Gabinete de Psicologia da PSP diz que «o suicídio nunca se esconde».De acordo com a responsável do Gabinete de Psicologia do SPP, há cada vez mais profissionais em risco e a realidade é «escondida», porque os agentes não podem «falhar», e essa «é a maior das falhas». Segundo explicou ao DN Sandra Coelho, as estatísticas oficiais apenas dizem respeito aos suicídios com recurso a arma de fogo ou, em raras excepções, por enforcamento. «São as mortes visíveis, citadas nos media como casos pontuais», mas, acrescenta, existirão casos de agentes que recorrem, por exemplo, à ingestão de comprimidos, «que nunca vêm a lume. Aqui, a causa de morte pode ser apresentada como uma simples paragem cardíaca». Também para Ernesto Peixoto, secretário-geral da Associação Sindical Independente de Agentes da PSP, o suicídio está subavaliado. «Sei de vários casos de colegas que atiram o carro de uma ribanceira abaixo e esses não são contabilizados», contou, defendendo que factores como «trabalhar oito dias seguidos sem folgar» agravam a situação. Daí que sejam cada vez mais comuns situações de «baixas por doenças psicológicas» e reformas antecipadas.Já para Fernando Passos, «a contabilização do número de suicídios é rigorosa e não há hipótese de existirem confusões». E mostra-se optimista: «Desde 2001, quando o nosso serviço abriu, que o número tem vindo a diminuir.» Uma leitura partilhada por um dos maiores sindicatos, a Associação Sindical de Profissionais da Polícia, que diz não haver subavaliação: «Os agentes são pessoas como as outras, com problemas comuns», disse o presidente Alberto Torres, para quem os suicídios não estão necessariamente ligados à profissão.Com uma visão contrária, Sandra Coelho alerta para a necessidade de prevenção. «O grau de desespero e descontentamento é cada vez maior e existem muitos profissionais que se encontram próximos de atingir o limite», afirmou.Alcoolismo. Há quatro anos, «Fernando» (nome fictício) pediu para que lhe prolongassem o tempo de serviço nos Açores, para dar apoioà filha que lá morava, na altura menor de idade. O pedido foi negado e o agente da PSP voltou para o Porto, «deixando a miúda perdida por lá» com a mãe. Daí ao alcoolismo foi um passo. Casou-se, divorciou--se e viu na bebida um «escape» à «enorme pressão no trabalho», aos «superiores que mandam em vez de comandar». Hoje, com 51 anos, está recuperado, mas não deixa de criticar a falta de apoio na PSP por considerar que resolvem os problemas «com processos disciplinares».Casos de alcoolismo são cada vez mais frequentes nas consultas de Sandra Coelho. «E a desintoxicação é morosa, com taxas de sucesso pequenas», diz. Fernando Passos desvaloriza: «A população policial enferma de alguns males da população portuguesa, mas não se pode dizer que é toxicodependente ou alcoólica.» Para a psicóloga, entre os factores de risco está a falta de apoio familiar, com «muitos agentes, em início de carreira, deslocados das famílias». As estatísticas do Gabinete de Psicologia da PSP mostram o contrário: só cinco por cento dos profissionais que ali acorrem estão longe de casa. Segundo Fernando Passos, o stress profissional e a instabilidade familiar são os principais responsáveis. O DN contactou a Direcção Nacional da PSP, que nos remeteu para o Gabinete de Psicologia. No entanto, o Gabinete de Relações Públicas garante «que é dado todo o apoio aos agentes».
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3 comentários:
Não se fez, nem fazem nada.
Em Lamego já se suicidou uma pessoa que devido ao seu comportamento ia fazendo antes dele se suicidar, fazendo com que outros fizessem igual a ele, ou pior vai-se lá saber, mas o Xanax receitado pelo Dr. Germano encontrou a solução.
Outros pediram a pré-aposentação.
Todos viam o que ele era, o que fazia, mas... nada.
Por causa disso alguns estiveram meses de baixa psicológica, outros iam tirando uns dias.
Hoje, vive-se como deuses e os anjos, não fosse a demora nas transferências para Viseu e isto era um Paraíso. Onde já li isto?!...
De facto, caro comentador, tem alguma razão.
De facto todos os que lidaram com o "falecido" parece que têm uma história para contar, boa ou má. Eu tenho muitas e todas elas muito más...
Essa pessoa tinha um comportamento humano muito temperamental, nervoso, muito mais emotivo que racional,mas tinha algumas virtudes, pese embora não lhe tenha encontrado nenhuma...
Para mim, foi mais uma vitima do sistema.
Problemas todos nós temos, claro está que é necessario ajudar quem realmente precisa. Ora também temos "Doentes" em part-time, ora vão ao Gabinete de Psicologia, ora andam a desempenhar funções,armados, com um sorriso nos lábios, e a vida vai correndo.
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